Crítica: Os Descendentes (Descendents) – Oscar 2012

Estrelas: 4/5
Direção: Alexander Payne
Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Beau Bridges, Robert Forster, Patricia Hastie

A vida não é fácil. Essa é uma mensagem que demoramos um pouco a compreender, principalmente na infância. Todos insistem em ressaltar como a vida é maravilhosa, nos vender a ideia de felicidade e o milagre da vida. Mas pouco a pouco entendemos que não é tão simples assim. Com toda a maravilha da vida surgem os problemas, as dificuldades, as decepções, os fracassos. E conseguir balancear os dois lados da vida, amá-la independente das dificuldades, é um grande segredo.

É essa realidade que o grande candidato ao Oscar (competindo com o mais independente e cult O Artista), os Descendentes, explora. No drama estrelado por George Clooney, Matt King é um herdeiro de terras no Havaí que, mesmo milionário, passou a vinda tentando não se entregar à luxúria. Dedicando-se a uma carreira como advogado que não precisaria ter, ele acaba não dando a atenção necessária a sua família, que passa por sérios problemas. Esses são agravados quando a sua esposa, Elizabeth (Hastie), sofre um acidente e entra em coma, forçando Matt a se reaproximar de suas duas filhas (Woodley e Miller) e enfrentar surpresas desagradáveis.


Os Descendentes se passa nas belas ilhas do Havaí e retrata, em geral, milionários. Mas isso não significa que seja um filme leve e feliz. O roteiro do próprio Alexander Payne, que por sua vez é baseado em um romance de Kaui Hart Hemmings, busca exatamente mostrar como ninguém está protegido dos problemas da vida, nem mesmo os “favorecidos”. E, evitando entregar os dramas do filme, não são problemas simples, longe disso. Mas também não são problemas difíceis de identificar nas nossas próprias vidas, no nosso cotidiano. E aí está o grande mérito do filme: a forma como nos identificamos com os personagens, suas autodescobertas e seus pensamentos. Não é uma história com heróis e vilões, mas um filme em que mesmo os coadjuvantes mais estereotipados (e vestindo as famosas camisas havaianas) tem muito o que contribuir.

Mas não há como negar que a alma do filme é George Clooney. Como um cineasta que tinha tudo para se tornar mais uma estrela pop, Clooney vem surpreendendo nos últimos anos, sempre envolvido em projetos interessantes, não temendo assumir a direção de filmes independentes e virando a cada dia uma das pessoas mais importantes e queridas de Hollywood. Merecidamente. Já tendo ganho o Oscar de ator coadjuvante por Syriana, Clooney almeja agora o prêmio como ator principal, mas sabemos que ele preferiria mesmo ganhar como roteirista (foi indicado por Tudo pelo Poder esse ano) ou diretor (já foi indicado por Boa Noite e Boa Sorte). É o grande nome do cinema do ano.

Outro destaque vai para a filha mais velha, Alexandra (Woodley), extramente eficaz no papel da filha que já enfrenta as dores da vida e mais sofre com os problemas da família, inclusive influenciando sua irmã mais nova e inocente (Miller). Alexandra representa exatamente o choque que temos quando descobrimos como a vida não é tão simples e grata. Junta-se a isso aos problemas da adolescência e a inevitável inspiração na problemática mãe, e Alexandra se torna um dos pontos chave da trama. Controlá-la e aproximá-la é imprescindível para Matt King, e é interessante ver como, mesmo sem parecer ter a menor ideia do que ele está fazendo, sua honestidade e humildade ajudam nesse desafio.

A fotografia e a direção agradam, mas mesmo fortalecidas pelas belas vistas do Havaí, não chegam a brilhar como poderiam. Os cenários do “California Wine Country”, em Sideways (melhor filme de Payne) são mais marcantes. A explicação para o título do filme (Descendentes), uma trama envolvendo a herança das últimas terras virgens do Havaí, também não convence. Vira uma mera subtrama, sombreada pelo drama familiar vivido pelos personagens e muito melhor trabalhado.

Em contrapartida, o leve tom de comédia do filme, visto principalmente no comportamento desajeitado de Clooney em ótimas cenas, agrega muito ao drama. E se o filme é narrado para que possamos mais facilmente entrar na mente do personagem principal (o que muitas vezes é desnecessário), terminamos com uma narração não de Clooney, mas de um documentário que, na voz de Morgan Freeman e ajudado por uma aconchegante cena, nos lembra que sim, a vida é muito difícil, mas nem por isso deixa de ser maravilhosa.

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